A porta

Alessandra estava exausta. Não via a hora de tirar aquele salto sete, desabotoar o sutiã meia taça  e despir o nada confortável vestido de paetê tão elogiado na festa de fim de ano que seu cliente tinha oferecido para os fornecedores. No elevador pensou que a melhor parte desses eventos é a volta para o hotel. Estava doida para colocar os pés para cima, dentro de uma banheira morna, ouvindo uma música suave, quando seu cartão magnético, a chave para o almejado descanso, emperrou.  Morrendo de sono, se viu no elegantíssimo lobby, do sofisticado hotel de São Paulo, às duas horas da manhã, meio desmontada, com a maquiagem borrada e o coque desmanchado, esperando a manutenção resolver o problema. O gerente, se desdobrando em mesuras e desculpas, ofereceu uma garrafa de champanhe para amenizar o desconforto que ela aceitou de mau humor. Sem nada mais para fazer ficou ali observando o movimento do hotel, talvez um pouco intenso para o horário. Aos poucos foi percebendo que os hóspedes elegantes, tinham sido substituídos por uma estranha fauna noturna. Todos aqueles executivos que de dia circulavam com seus ternos bem cortados e suas pastas de crocodilo, estavam agora semi-alcoolizados, acompanhados por estranhíssimas figuras que se vestiam de uma forma exagerada, quase vulgar. Sua ficha demorou a cair. O click só se deu, quando um cara com sotaque italiano, se aproximou e perguntou se ela já estava agendada. Agendada?! Eu? Para que?  E ai se tocou. A essa altura da madrugada,  mesmo com seu vestido caríssimo e com as jóias de família, não se diferenciava muito do movimento noturno. Podia ser perfeitamente confundida. Aliás estava sendo confundida naquele exato momento. Surpreendentemente, ao invés de se indignar, rodar uma baiana e chamar o gerente, deixou o cara continuar pensando que ela era o que ele gostaria que ela fosse.

O ambiente impessoal, a cidade estranha onde a princípio não se conhece ninguém e a fantasia de experimentar ser uma profissional do sexo, a encorajaram a deixar o equívoco rolar. O italiano, completamente à vontade, enquanto conversava, deixava uma mão indiscreta brincar com o paetê do seu vestido. Uma atitude inimaginável para um encontro que tinha acabado de acontecer. Alessandra ficou meio atordoada com aquela intimidade toda, mas continuou o jogo. O próximo passo deveria ser o preço.  Quanto será que ela valia? Não conhecia absolutamente esse mercado e não tinha a mais vaga idéia da escala de valores. Na dúvida resolveu mandar altão para o cara desistir. Escreveu no guardanapo  um valor que daria para comprar um carro. E aguardou a reação. Mas para sua surpresa, o cara topou. Ela gelou. A brincadeira estava ficando séria.  Depois, se uma pessoa esta disposta a pagar aquilo tudo é porque espera um serviço de primeira.  Estaria ela a altura dessa qualidade toda? O afoito, como se já tivesse fechado  negócio, continuava bisbilhotando a mercadoria com aquelas mãos salientes, que a essa altura já vasculhavam suas pernas. Alessandra cada vez mais perturbada com a velocidade dos acontecimentos, sentiu um misto de excitação e repulsa, de vontade com censura, de culpa com desejo que a deixou tão dividida, tão confusa e nervosa que quando já estava sentindo, aquela mão subindo por sua coxa, amarelou.  Sua ética falou mais alto. Não conseguiu transpor os dez anos de colégio de freira,  as injeções de moral e bons costumes, e  tudo que tinha aprendido sobre as relações regadas a honestidade, integridade e fidelidade. Abriu o jogo com o possível cliente que ficou num misto de sem graça com decepcionado. O gerente do hotel chegou bem nessa hora, com a notícia de que a porta do quarto  já estava consertada. Salva pelo gongo, Alessandra se  despediu da tentação e subiu para o seu apartamento sem olhar para trás. Sozinha no quarto, experimentou uma sensação de frustração e adormeceu meio tensa. Acordou com um buquê de rosas vermelhas pedindo desculpas pela noite anterior e um convite para almoçarem juntos. Aceitou. Encontrou um outro homem. Sóbrio,  cortês, amável, e  infinitamente mais contido. Alessandra achou que agora sim, poderia estabelecer com ele uma relação normal, como ela estava acostumada e como achava que deveria ser. Mas para sua surpresa, por  mais que tentasse não conseguia chegar nem perto da excitação da noite anterior. Sentia falta do atrevimento, da ousadia, da mão sem vergonha. Frustrada de não sintonizar mais aquele recém descoberto canal erótico, resolveu ser sincera  e confessou ao comportado empresário que gostava mesmo era do seu lado cafajeste. Sugeriu que voltassem a se encontrar nas mesmas circunstâncias da noite anterior. Ele topou. E dessa vez rolou. Durante meses, desenvolveram uma liberalíssima relação, puramente sexual. Quando ia a São Paulo, Alessandra se hospedava no mesmo hotel e brincava de ser uma caríssima prostituta e ele um riquíssimo cliente. Anos de terapia não teriam feito tão bem a sua vida sexual do que aquela porta que não abriu naquela noite, no elegante hotel de São Paulo.