O ETERNO RETORNO

      Atravessada na gigantesca cama king size do hotel cinco estrelas, Maristela, soluçava de raiva, ciúmes e de amor próprio ferido. Indignada, não parava de se perguntar,  o quetinha acontecido com ela para seenvolver dessa forma com um cara dissimulado, sedutor, e galinha, que não fazia outra coisa na vida se não mentir e trair.

        No último ano,  sua analista, sua astróloga, sua taróloga e todas as suas amigas, não fizeram outra coisa se não adverti-la de que Arnaldinho era atraso de vida, fixação, neura, vicio, desamor. Mas ela, totalmente de quatro pelo imbecil, achava o que acham todas as mulheres que ficam de quatro por imbecis: que com ela ia ser diferente. - Como fui idiota! Pensou. - Quantas dessasjá devem ter acontecido sem eu saber! E se estapeou na frente do enorme espelho bisotado da suíte. Começou a lembrar das várias vezes que percebia um climão entre Arnaldinho e umas vadias, louras, burras e gostosas, que faziam caras, bocas ecódigos para o conquistador barato que fingia que não era com ele. - Mas era! E jogou o vaso de murano no espelho de cristal. Então ele tem o topete de vir passar o carnaval na Bahia com ela, para selara vigésima quinta reconciliação e na primeira oportunidade que surge pula a cerca! Mas mentira tem perna curta e enquanto ela esperava por ele zapeando carnavais e programas de auditório na TV, deu de cara com o ordinário, num noticiário local, atracado com uma baianinha axé, cheia de amor para dar. Não foi comprar cigarro porra nenhuma! E puxou a toalha com toda a louça de porcelana que estava na mesa do jantar! - Por isso que ele estava demorando! E chutou a mala dele até a varanda. Enquanto crescia dentro si uma onda de vingança,  foi jogando camisa Armani por camisa Armani pela janela do décimo quinto andar! O perfume que saiu das roupas fez ela se lembrar da noite anterior. Ele apaixonadão, sussurrando no seu ouvido, confissões e juras de amor. - Quer ver o que a mulher da sua vida vai fazer? Quer? E jogou para o povo que ia atrás do trio elétrico, uma meia dúzia de cartões de crédito, um bolo de notas de cem e o famoso relógio rolex que ele gostava mais do que da própria mãe e quando pensava em se jogar junto com o leptop dele, Arnaldinho surge com aquela cara lavada de cinismo perguntando o que tinha acontecido. Maristela que não tem o menor talento para ser atriz, respondeu canastrona que tinha feito um sexo super selvagem e gostoso com o garçom e que desarrumaram um pouco o apartamento... - Mas tudo bem, porque é carnaval .... 

     Sabe aquele silêncio que antecede os grandes cataclismas? Foi o que aconteceu. Depois, o barulho foi tão ensurdecedor que não sobrou pedra sobre pedra na suite que a essa altura não tinha mais nenhuma estrela. O casal gay alemão que estava no quarto ao lado, não precisou de tradução simultâneapara entender que ali ou se matava ou se morria e ligou para a recepção, que chamou a polícia, que chegou com sirenes e levou o casal em duas viaturas separadas pois eles se recusaram a entrar no mesmo carro e só concordaram em sefalar através de advogados. Voltaram em vôos diferentes e ficaram um tempão sem se ver. Maristela dizia para todo mundo que graças a Nossa Senhora das Causas Difíceis, tinha acabado!  Que finalmente estava livre da doença. Que não queria ver nem morto. Que se encontrasse na rua mudava de calçada. - Impressionante como eu estava cega! E quanto mais cavucava o passado mais Denises, Sandrinhas e Paolas saiam da cartola cheia de chifres que ela tinha tomado do Arnaldinho. Mas como o acaso vive fazendo surpresas,  numa dessas se esbarraram, depois de uma garrafa e meia de champanhe, no saveiro do Guilhermão em Angra.  Todos temeram pela cena seguinte, mas nada aconteceu. Os dois educadíssimos um com o outro,  falavam cada vez mais baixo e ficavam cada vez mais juntos. Quando neguinhose tocou,  já rolava o maior amaço. Sob o sol, o sal e o azul do mar, fizeram sua vigésima sexta reconciliação, rolando nas areias brancas de uma praia paradisíaca. Até que a morte ou a polícia os separe.