O BOOK

Folheando uma revista masculina, Maria Rita, vê sua ex colega de colégio, num ensaio fotográfico, nua em pêlo. Esquadrinhou página por página em busca deimperfeições que só nós mulheres conhecemos mas não conseguiu achar um defeitinho sequer, nenhuma estria, nenhuma celulite, nenhuma gordura localizada. Tudo estava insuportavelmente no lugar. Dava raiva de ver.

Péssima em geografia, péssima em história, péssima em matemática, Ariadne Lima, modelo e atriz, peladana revista, estava batendo um bolão!

Maria Rita não teve mais sossego. O corpo sensual e a boca carnuda, de Ariadne, não saiam da sua cabeça. Chegou a sonhar que estava com ela na cama. Acordou nervosa! Será que estava a fim da Ariadne? Com vergonha de se abrir com alguém, foi convivendo com essa fixação até que um dia, experimentando um biquíni numa loja, percebeu que seu esforço na academia estava surtindo efeito e que com um bom fotógrafo e um pouquinho de photoshop, ela ficaria pau a pau com Ariadne. Foi quando se deu conta que aquilo que ela estava sentindo em relação à ex colega, não era tesão, era INVEJA! - Por que Ariadne podia aparecer gostosonana foto e ela não? Só porque não sou famosa? Dane-se a fama! Posso perfeitamente perpetuar para todo o sempre, esse momento em queo meu corpo esta no apogeu!

Ficou animadíssima com a idéia. Um book dela nua, linda e desejável, para no futuro mostrar para seus netos e dizer: – Olha só, vovó já foi isso tudo!

Com essa idéia na cabeça partiu para execução. Como não era do ramo, pediu ajuda aqui e alie acabou fechando com um fotógrafo desconhecido amigo de um amigo, que topou por três cheques pré-datados, fazer o álbum de Maria Rita nua como veio ao mundo.

A sessão de fotos,  começou dentro de um certo constrangimento da parte dela. Afinal ficar nua, fazendo caras e bocas com um ilustre desconhecido, não era tão fácil como ela supunha. Mas acabou se habituando e quando se deu conta já estava totalmente a vontade com aquele fotógrafo cafajeste que diziapara ela empinar mais a bundinha, passar a língua nos lábios, e abrir um pouquinho mais as perninhas...  E cada foto clicada vinha com um elogio do tipo: Isso! Assim! Gostosa! Hum ... que delícia! Lá pelas tantas já rolava um clima, entre ela e o fotógrafo. Pelo menos assim Maria Rita interpretou. Na sua terra, aquela maneira de um homem tratar uma mulher, queria dizer que ele estava a fim de muito mais do que apenas fotos.  De modo que já tinha esquecido o ensaio nu para mostrar para os netos e estava entregue a uma excitante sessão de poses erótica que com certeza acabaria em sexo selvagem naquele fundo infinito.

Com essa expectativa em mente, foi se soltando de tal forma que fez com que as fotos de Ariadne ficassem comportadas como um editorial de moda outono-inverno.

Quando a sessão acabou e ela achou que o homem doido de tesão ia mergulhar em cima dela e sussurrar todas aquelas sacanagens no seu ouvido, o fotógrafo pega o celular, fala: 

- Amor, acabei. Te pego aonde? Estou morto de fome, vamos jantar?

Maria Rita sente uma ducha fria inundar todo seu corpo enquanto ele começa a desmontar o equipamento e combinar datas e prazos num tom eficiente completamente diferente do que estava usandodurante as fotos. Atordoada, vestida com uma langerie sexy, quase ridícula, tenta achar uma cara, um tom, para lidar com aquela situação subitamente burocrática. Veste qualquer coisa de qualquer jeito e desce com ele no elevador. Lá em baixo, enquanto se despedem, ouve um último elogio.

- Gostei de ver Maria Rita! Você dá para o negócio. Se quiser entrar pro ramo pornô,  procura esse amigo meu. Ele é o melhor na praça.

E lhe entrega um cartão. Maria Rita fica ali na rua com o cartão e uma exaustão que só agora se dá conta. Faz sinal para um táxi e vai para casa meio envergonhada, meio frustrada, meio sei lá.... De repente, se lembra de Ariadne Lima e sente um profundo respeito por ela.